Um vazio no ninho

Semana passada uma amiga me mandou este trabalho “Invisíveis” (2018) do Jaume Plensa. Imediatamente me veio uma vontade de voltar a um texto que escrevi no ano passado, quando estava naquela batalha interna e externa sobre voltar a trabalhar. Fiquei com esse desejo de compartilhar o texto, especialmente porque eu sei que existe um bocado de mulheres que estão como eu estava – e de certo modo ainda estou – neste exato momento. Queridas amigas de luta, eu quero que vocês saibam que não estão sozinhas. Então bora andarmos juntas…

Aqui vai o texto:

Você. Você está em casa. É fim do dia, tudo e todos estão nos devidos lugares. Tudo sob controle. Você se sente orgulhosa de si mesma – por 40 minutos. E, de repente, ele aparece, aquele sentimento velho conhecido.

Você acorda mais cedo e dorme mais tarde que todo mundo. Malha pesado na academia e ainda leva o cachorro pra passear – sério, você está mesmo super em forma!

Você mantém as crianças na agenda, o ônibus escolar no horário. Leva os pequenos nas atividades de grupo. Prepara a diversão pra depois da escola. Dá esperteza, alegria, liberdade aos filhos. Tem total noção do que está fazendo, afinal, leu todos os livros sobre educação, além de assistir três vezes aquele documentário sobre a importância de aprender brincando.

Você sorri para as pessoas na rua. Tem uma conversa bacana com os vizinhos. Prepara uma comida saudável e gostosa – pelo menos acha que é. Ouve sobre o trabalho do marido com legítimo interesse. Paga até as contas online – olha só, você, cuidando da conta do banco!

Mas aquele velho sentimento está ali, em algum lugar entre o sopro da madrugada e a soneca da tarde do pequeno. O vazio. Você fecha os olhos, abre de novo, e o insistente ainda continua lá!

Você costumava ser aquela super professional. Fez um mestrado, fala várias línguas. Sabe que é inteligente, criativa e uma super líder – apesar de não ter sido criada com aquele documentário sobre a importância de aprender brincando.

Você pode se dividir e se multiplicar pelo menos dez vezes por segundo. Mas está vazia. Sente-se sem um propósito e está com preguiça de procurar um. Diz que está cansada, sabendo que está mesmo é mentindo pra si: você só não sabe como e por onde começar. Aquele primeiro passo lhe faz pensar demais e, no fim das contas, acaba sempre navegando num website muito conceituado sobre aprender brincando.

A galinha está vazia porque o ninho está cheio. Esta é a sua realidade, mas de alguma forma suspeita que é a sua desculpa também. Não pode escolher seu tempo, tudo isso é sobre ajustar o tempo que lhe sobra.

Você está feliz, não está reclamando, de forma alguma! Mas sente que pode fazer mais – e está com medo de assumí-lo. Tem uma oportunidade incrível de pegar o que quiser, fazer o que gosta. Mas está tão vazia, que não consegue se reconhecer mais.

Está consciente que está no meio do caminho e que o que vier é por sua conta. Mas será que a galinha pode trazer algo mais pra o ninho?

Você nunca esteve tanto tempo consigo mesma. Você nunca pensou tanto sobre si. Você esqueceu que o primeiro pronome que aprendeu foi “Eu”. “Mim”. “Meu”. “Eu mesma”. Mas você só se perdeu para a humanidade.

PS: Jaume Plensa é de Barcelona, mas tem trabalhos espalhados pelo mundo. Além dos "Invisíveis" que fica em Madrid e esculturas do estilo, eu cai de quatro pelo "O Coração das árvores" (Wakefield, UK). Se você mora em uma dessas cidades ou está de visita, pode me fazer o enorme favor de me mandar a sensação de encontrá-las ao vivo? Agradecemos por antecipação.   🙂
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Powered by WordPress.com.

Up ↑

lapieldelabatata

Bocetos, versiones, fragmentos de realidad · Textos por: Andrés Gómez O

The Daily Post

The Art and Craft of Blogging

%d bloggers like this: