No meio

Ando meio obcecada com histórias de pessoas que passam por experiências fora do corpo. Essa coisa de poder se olhar de fora, olhar o entorno sem sentir dor, enquanto navega solto no espaço, deve ser uma experiência inesquecível – ou no mínimo transformadora.

Eu tive uma vez a experiência de olhar de fora e que de alguma forma me transformou. Não, eu não sai do corpo, não fiquei flutuando no ar. Tinha acabado de chegar no Canadá, com o inglês “daquele jeito” e o único emprego que consegui foi em um call center – por mais irônico que isso possa parecer.

Basicamente ouvia gente me xingando a cada cinco minutos, não podia dizer que estava grávida e trabalhava em horários que tomavam um pedaço da madrugada. Mas precisava dessa experiência.

O lugar era perto do aeroporto de Toronto, então dava pra ver os aviões decolando bem de pertinho – o que já é um risco em si. Mas foi um dia, num intervalo, me sentindo o pior dos humanos, me perguntando o que eu estava fazendo ali, com um mestrado e uma carreira toda desenhada no Brasil, em que vi um avião baixando e tive a epifania de me ver como se fosse o avião.

Não sei explicar exatamente como foi isso mas, naquele clique, consegui sair do meu corpo e entender que eu estava ali para aprender algo muito importante: humildade. Entendi que aquele era um processo e decidi focar nisso.

Foi quando tive a idéia de que toda vez que alguém me xingasse numa chamada, eu o trataria melhor ainda. Eu entendi que não era melhor que ninguém, e que deveria ter mais empatia pelo o que o outro estava passando ao invés de pensar só em mim.

Quase atingi o Nirvana: os meses passaram mais rápido e mais leves. Minha filha nasceu, tive minha licença maternidade garantida, voltei pro mercado na minha área, ainda agradecida por tudo.

Mas a gente esquece. A gente esquece que a vida é um processo em si, cheio de processinhos dentro. A gente olha desesperado pra o momento em que está passando e esquece de se perguntar sobre o aprendizado em torno dele. Olhar de fora e olhar para si mesmo, tentando encontrar o que está lhe impedindo de seguir, o que não aprendeu ainda.

Neste ponto, eu invejo artistas como Yayoi Kusama. É claro pra mim que ela precisa do processo, se mergulha dentro dele até a última gota. Cada pontinho, cada pedacinho de luz tem uma razão pra ela, tem essa noção do todo, da idéia clara de quem olha tanto de fora que mergulha em si. O resultado é estonteante mas, mais que isso, conta toda uma viagem através da viagem de cada pedacinho.

Acho que a gente sofre demais com os processos. O caminho pode ser sempre difícil, mas se a gente gasta tempo olhando pra baixo, focando no pé que dói, acaba perdendo o que aparece de bonito na caminhada. O processo é o que nos leva a algum lugar e o que a gente leva na bagagem de verdade, no final da história. Então hoje, neste dia frio e sem sol, estou aqui fazendo o mesmo exercício de sair do meu corpo, repetindo tudo isso pra mim, enquanto falo com vocês.

Descobri que vão lançar um documentário sobre Yayoi Kusama em setembro. A diretora “só” demorou mais de dez anos para concluir o projeto. Quer mais noção de processo do que isso? Clique aí embaixo para ver o trailer que é sensacional!

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