Pão

“Menina, a coisa aqui está tão ruim que nem tenho vontade de sair de casa.” Lembro-me dessa frase do Chico, na última vez em que nos vimos, quando fui ao Brasil. Senti uma tristeza danada quando sai do bar em que nos encontramos. Ele era a gentileza em pessoa, um artista genial, de uma simplicidade infinita, de uma gargalhada saculejante e, se ele estava assim, os tempos realmente estavam péssimos.

O Brasil iniciava seu processo de queda. Meus amigos artistas já estavam sentindo na pele e no bolso o desastre econômico e político do país. Vista como supérfulo, a arte mais uma vez estava sofrendo os seus cortes. No meio dos cortes que vieram, perdemos o Chico.

Quando soube da morte dele, há exatamente dois anos atrás, me deu um desespero, aquele medo que se tem quando se começa a perder muitos dos bons. Tenho uma sorte danada de ter amigos artistas. Eu sei que eles não são de outro planeta mas possuem um certo andar de cima, uma conexão diferente com a vida. Encontrar com eles e com a arte deles, é nunca voltar a mesma. E eu amo-preciso ser transformada.


Nós temos milhares de perguntas e tormentos que ignoramos. O artista não os tolera e, por se atormentar demais, os sedimenta em arte. Enquanto a pergunta persistir, enquanto o incômodo permanecer, permanece o artista, a forma essencial de arte.

O Mercado de arte aqui em NY, neste ponto, é a coisa mais sem sentido que existe. Ele mastiga o artista para devolver um resto vazio. Tenho um amigo-artista incrível que foi acusado de não ser agressivo suficiente para o mercado das artes nova-iorquino. E ele só estava sendo ele, com uma arte forte e genuína, sem ligar para o mercado. A coisa é tão irônica porque é justamente o fora do contexto que atrai o negócio da arte e quando o trabalho do artista se enquadra em algo mais agressivo no estilo mercado das artes de NY, fica vazio, perde o interesse e o mercado o devolve destruído.

É maravilhoso ver meus amigos vivendo de arte, mas eu sei que é bem sofrido também. Diferentemente de outras profissões, a maioria não tem hora fixa de trabalho – e por isso são chamados pelos estúpidos de vagabundos!, porque a arte está integrada a eles, a hora de trabalho é o dia inteiro com a mente tumultuada e, por isso mesmo, são raros os que conseguem se aposentar.


Sei que tem um bocado de gente neste mundo sentindo uma saudade enorme do Chico. Sinto falta não só dele, mas do tipo de arte que ele representa, genuína, crua, uma contribuição honesta de si. Tenho um orgulho enorme dos amigos que ainda resistem. Os tempos seguem longe de favoráveis à arte e ao artista no Brasil e me dá uma tristeza sem fim saber que ainda boa parte das pessoas não entendem que arte também é alimento.


A gente já perdeu o Chico. Não precisamos perder o que sobrou. Essa é a nossa única chance de formarmos gente sensível para um mundo que anda cada vez mais feito de gesso.

Dos trabalhos  do Francisco (Chico) Magalhães, o "Na Relva” (2001-2004) acima é um dos meus favoritos, especialmente porque representa o que ele fez comigo. Chico foi marcando o seu espaço pouco a pouco aqui no meu coraçãozinho de loba. O vídeo abaixo da uma idéia – ainda que bem vaga – do legado que ele deixou (e da saudade também). (Foto: Daniel Mansur)
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